Falar da minha experiência com os adictos é uma tarefa muito difícil. Mas muito prazerosa também. Difícil porque com o decorrer das visitas que fizemos, várias outras coisas ocorreram também. Momentos estressantes, outros nem tanto. Momentos incríveis e outros nem tão relevantes assim. E prazerosa porque a cada situação dessa vivida, uma nova concepção era formada em cada uma de nós. Era formada ou re-formulada uma visão positiva a cerca da adicção.
O primeiro passo do adicto é reconhecer-se adicto. E considero esse o principal e o mais difícil passo. Reconhecer-se impotente perante uma sociedade consumista e segregadora é muito complicado. Principalmente porque essa sociedade também é levada em consideração como umas das precursoras para a dependência.
Não estou dizendo que somos seres passivos ao ponto de receber qualquer coisa que nos é emitida. Mas algo está sendo passado, e muitas vezes de uma forma indireta e mascarada. E nem todo mundo tem a capacidade de criticar uma situação, ou de se auto-criticar.
A droga é, sem duvida, uma das saídas. Se tudo estivesse às mil maravilhas, se a miséria não fizesse parte da nossa sociedade ou se o preconceito não fosse característica de um país, não existiria um índice tão alto de mortes por conta do crack.
A cada frase que os adictos formavam, sempre citavam que precisavam de ajuda. A relação entre eles era de respeito, de amizade, de irmandade, de reciprocidade. Então não tinha como eu não me sentir bem-vinda, era quase que impossível. Não se concentrar em uma situação como aquela era como se fechar imprudentemente.
Olhar e perceber cada um, e ouvir o que eles falavam, mexeu muito comigo. Eu senti como se todos ali estivessem em um parâmetro só. E digo isso, no sentido de não sentir diferenças entre eles. E foi quando entendei o significado de “Só por hoje”. Eles não tinham pressa para ficarem limpos, até por que sabiam que é impossível entrar no NA ou em qualquer outro estabelecimento voltado para a “cura”, e seguir todos os passos de uma vez só. Eles respeitavam o seu tempo, e respeitavam também o tempo do outro. E caso fosse necessário, sofria junto com o outro. Porque, de fato, eles têm algo em comum.
A fé é, sem dúvida, uma das bases que os sustentavam, se não for a maior delas. Porque era no fundo do poço que eles sentiam um ser superior ao lado deles. E se ater a isso pode parecer loucura para muitos, mas para outros é a porta aberta pela qual tanto esperavam.
Alguns dizem que isso é dependência, que somos seres individuais, que temos que saber lhe dar com nossa independência e nossa solidão. Mas ali, eles estão em interação, em um circulo de ajuda, como em uma corrente, então não faz sentido dizer que isso é inútil. E dependência não precisa ser encarada de uma forma tão pessimista assim. Afinal não aprendemos nada se não for com a interação. É preciso saber respeitar o Deus que existe em cada um deles, e de nós,claro.
Se conhecer, não é tão simples assim. É saber reconhecer os seus erros. Respeitar seus limites e os dos outros. E quando você finalmente pensa que se conhece, você está apenas no início de tudo. E é preciso humildade para reconhecer isso.
Enfim, minha experiência foi muito positiva. E confesso que não sabia que seria tanto. Cada situação passada, momento vivido, valeram a pena. A vida de um adicto não é fácil, e por último queria levar em consideração o último passo deles.
Cada adicto, depois de tudo, deve ajudar outros adictos, e isso é muito bonito. Depois de tudo que passaram para ficarem “limpos” eles devem ajudar exatamente aqueles que se encontram ou se encontraram em situações semelhantes às suas.
R.C.
Seminário - Adicção e inclusão social.
Psicologia Social.

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